Arquitetura corporativa federal (FEA – Federal Enterprise Architecture
A arquitetura corporativa federal (FEA) é a mais recente tentativa do governo federal unir o grande número de agências e funções sob uma única arquitetura corporativa comum e universal. A FEA ainda está em seus primórdios, pois a maior parte dos principais itens está disponível desde 2006, apenas. Todavia, conforme mencionei na seção histórico, possui atrás de si uma longa tradição e, se não for por nenhum outro motivo, tem muitas falhas as quais, quem sabe, serviram para o aprendizado de lições valiosas.
A FEA é a mais completa de todas as metodologias discutidas até agora. Possui uma taxonomia abrangente, como Zachman, e um processo arquitetural, como o TOGAF. A FEA pode ser considerada uma metodologia para criar uma arquitetura corporativa ou o resultado da aplicação desse processo a uma determinada empresa, ou seja, o governo norte-americano. Farei a minha análise da FEA pela perspectiva metodológica. Meu interesse específico, aqui, é como poderemos aplicar a metodologia FEA às empresas privadas.
A maior parte dos escritores descreve a FEA como simplesmente compreendendo cinco modelos de referência, um para cada desempenho: negócio, serviço, componentes, técnico e dados. É verdade que a FEA tem esses cinco modelos de referências, mas existe muito mais na FEA do que apenas os modelos de referência. Um abordagem completa da FEA precisa incluir todos os seguintes itens:
- perspectiva de como as arquiteturas corporativas devem ser observadas (o modelo segmento, que descreverei de modo sucinto);
- conjunto de modelos de referência para a descrição de várias perspectivas da arquitetura corporativa (os cinco modelos acima mencionados);
- processo para criar uma arquitetura corporativa;
- processo transicional para migrar de um paradigma pré-EA para um pós-EA;
- taxonomia para catalogação de ativos que fica no âmbito da arquitetura corporativa;
- abordagem para medir o sucesso de se usar a arquitetura corporativa para trazer valor ao negócio.
Como se vê, a FEA trata de muitas questões e não de modelos, apenas. Inclui tudo o que é necessário na construção de uma arquitetura corporativa para, provavelmente, a mais complexa organização da Terra: o governo norte-americano. No dizer do FEA-Program Management Office (FEAPMO), a FEA, considerada in totum, fornece:
…uma linguagem e um framework comuns para descrever e analisar os investimentos em TI, aprimorar a colaboração e, por fim, transformar o governo federal em uma organização centrada no cidadão, orientada a resultados e baseada no mercado, conforme estabelecido na Agenda de gerenciamento do presidente. [25].
Ainda que seja um desafio imaginar que nada menos do que uma obra de intervenção divina possa “transformar o governo federal em uma organização centrada no cidadão, orientada a resultado e baseada no mercado”, existe pelo menos a esperança de que alguma metodologia FEA possa ajudar nossa problemática empresa MedAMore a lidar com seus problemas muito mais rotineiros. Assim, vejamos o que a FEA tem a oferecer.
A perspectiva da FEA sobre a arquitetura corporativa (EA)
Uma empresa constrói-se de segmentos. Essa é a perspectiva da FEA sobre a EA, idéia primeiramente apresentada pela FEAF [26]. Segmento é uma funcionalidade principal da linha de negócio, como a área de recursos humanos. Existem dois tipos de segmentos: segmentos de área de missão central (core mission) e segmentos de serviços do negócio.
Um segmento de área de missão central é aquele fundamental para a missão ou finalidade de um determinado limite político no âmbito da empresa. Por exemplo, na agência de saúde e serviços sociais (HHS) do governo federal, saúde é um segmento de área de missão central.
Um segmento de serviços do negócio é fundamental para muitas organizações políticas, se não para todas. Por exemplo, a gerência financeira é um segmento de serviços do negócio necessário a todas as agências federais.
Outro tipo de ativo da arquitetura corporativa é um serviço corporativo, função bem definida que transpõe limites políticos. Um exemplo de serviço corporativo é o gerenciamento de segurança, serviço que trabalha de modo unificado através de todas as seções da empresa.
A diferença entre serviços e segmentos corporativos, especialmente segmentos de serviço do negócio é confusa. Ambos são compartilhados por toda a empresa. A diferença está em que os segmentos de serviço do negócio têm um escopo que abrange apenas uma única organização política. O escopo dos serviços corporativos abrange toda a empresa.
No governo federal, por exemplo, as duas agências, HHS e a de proteção ambiental (EPA), utilizam o segmento de serviço do negócio recursos humanos. Entretanto, as pessoas gerenciadas por recursos humanos compõem dois grupos diferentes: HHS e EPA.
Ambas, HHS e EPA, também usam o serviço corporativo gerenciamento de segurança. Todavia, as credenciais de segurança gerenciadas pelo serviço de gerenciamento de segurança não são específicos para nenhuma dessas agências. As credenciais de segurança são gerenciadas efetivamente, apenas quando gerenciadas no âmbito da empresa.
Resista à tentação de equiparar segmentos ou serviços com serviços, como em arquiteturas orientadas a serviço. Existem dois motivos para desqualificar tal comparação. Em primeiro lugar, serviços corporativos, segmentos de serviço do negócio e segmentos de área de missão central são muito mais abrangentes no enfoque do que os serviços encontrados nas arquiteturas orientadas a serviço.
Depois, os segmentos são uma unidade organizacional de uma arquitetura corporativa, enquanto que serviços são uma unidade organizacional das implementações técnicas. Como unidades organizacionais de uma arquitetura corporativa, suas profundidades incluem não apenas a técnica, mas também as arquiteturas do negócio e de dados.
Uma nota final sobre segmentos: embora os segmentos funcionem no nível político (ou seja, agência), são definidos no nível corporativo (ou seja, governo). Os serviços corporativos, evidentemente, funcionam e são definidos no nível corporativo.
O fato de os segmentos serem definidos em nível global facilita a reutilização através de todos os limites políticos. Pode-se mapear o uso dos segmentos através dos limites políticos da empresa e, depois, usar esse mapa para procurar oportunidades de reuso arquitetural. A Figura 8, por exemplo, apresenta um mapa de segmentos do governo federal com base no guia prático da FEA [27]. Como se vê, existem muitos segmentos (colunas verticais) usados em várias agências e qualquer uma delas, ou todas, são boas candidatas ao compartilhamento.

Figura 8. Mapa segmentado do governo federal
Modelos de referência da FEA
Os cinco modelos de referência da FEA tratam, sobretudo, do estabelecimento das linguagens comuns. Aqui, a meta é facilitar a comunicação, cooperação e colaboração através dos limites políticos. De acordo com o FEAPMO:
A FEA compreende um conjunto de “modelos de referência” inter-relacionados projetado para facilitar a análise inter-agências e a identificação de investimentos duplicados, lacunas e oportunidades para colaboração dentro e através das agências. Em termos coletivos, os modelos de referência [compõem] um framework para a descrição de elementos importantes da FEA, de modo comum e consistente. [28]
Por que precisamos de uma linguagem comum? Analise este diálogo:
James: Você tem um “torch” (em inglês: lanterna, farolete ou maçarico) para me emprestar?
Roger: Não, acho que não.
James: Saberia me dizer onde posso comprar um?
Roger: A loja de ferragens na cidade pode ter.Com essa informação, James vai até a loja de ferragens e compra um torch (lanterna). Quando ele volta…
Roger: Conseguiu o seu torch?
James: Sim, aqui está.
Roger: Mas, isso não é um maçarico! É uma lanterna. Por que não me disse? Tenho uma que poderia ter lhe emprestado.
James: Bem, por que você não me disso isso?
O problema, lógico, é que o James é inglês, e o que eu chamo de lanterna os ingleses dizem farolete. E, pior, quando ouço torch (lanterna, farolete ou maçarico), logo penso em blowtorch (maçarico). Embora ambos falemos inglês, não falamos necessariamente o mesmo inglês. O resultado é que James saiu e, desnecessariamente, gastou dinheiro em algo que eu poderia ter lhe emprestado.
Esse é exatamente o problema que os modelos de referência da FEA tentam resolver em escala muito maior. Suponha que a receita federal (IRS) resolva que precisa de um sistema demográfico para rastrear dados de contribuintes. Perguntam aos fabricantes do setor se alguém tem um que possa ser modificado para essa finalidade. Ninguém tem.
Mal sabem eles que, na porta ao lado, a imprensa oficial do governo (GPO – Government Printing Office) tem um sistema demográfico perfeito, quase exatamente aquilo que a receita federal precisa. É que o pessoal da imprensa oficial chama o sistema de análise de clientes.
Desconhecendo o fato, a receita federal sai em campo e constrói seu sistema do zero, em lugar de apenas modificar aquele já construído (e pago) pelo GPO. E, assim fazendo, a receita federal vai gastar consideravelmente muito mais do que James gastou comprando uma lanterna desnecessária.
Isso, em poucas palavras, é a meta dos cinco modelos de referência da FEA: oferecer termos e definições padronizados para os domínios da arquitetura corporativa e, assim, facilitar a colaboração e o compartilhamento através do governo federal. Os cinco modelos de referência são os seguintes:
- O modelo de referência do negócio (BRM – business reference model) oferece uma visão do negócio das várias funções do governo federal. Por exemplo, o BRM define uma capacidade-padrão do negócio denominada gerenciamento de recursos hídricos, subfunção de recursos naturais, considerada uma linha de negócio da área de negócio mais ampla, serviços para a comunidade; [29]
- O modelo de referência de componentes (CRM – components reference model) oferece uma visão mais de TI dos sistemas que dão suporte à funcionalidade do negócio. Por exemplo, o CRM define um sistema de análise do cliente que descrevi anteriormente na inter-relação hipotética entre a receita federal e a agência de proteção ambiental; [30]
- O modelo de referência técnica (TRM – Technical Reference Model) define várias tecnologias e normas que podem ser usadas na construção dos sistemas de TI. Por exemplo, o TRM define HTTP como um protocolo, subconjunto de um transporte de serviços, subconjunto de um acesso e entrega de serviços; [31]
- O modelo de referência de dados (DRM – Data Reference Model) define formas padronizadas para descrever dados. Por exemplo, o DRM define uma entidade como algo que contém atributos e participa nos relacionamentos; [32]
- O modelo de referência de desempenho (PRM – performance reference model) define formas padronizadas para descrever o valor gerado pelas arquiteturas corporativas. Por exemplo, o PRM descreve qualidade como uma área de medição tecnológica, definida como “a extensão de acordo com a qual a tecnologia satisfaz as exigências de funcionalidade ou capacidade”. [33]
Processo da FEA
O processo da FEA concentra-se, principalmente, na criação de uma arquitetura de segmentos para todo o subconjunto da empresa (no caso da FEA, a empresa é o governo federal e o subconjunto, uma agência governamental) e está descrita no Guia de prática da FEA [34]. Anteriormente neste artigo, já discuti a visão da FEA sobre os segmentos corporativos. O processo global de desenvolvimento da arquitetura de segmentos é (em um nível bem elevado) o seguinte:
- Etapa 1:
Análise arquitetural: define uma visão simples e concisa do segmento, fazendo uma relação retrospectiva com o plano organizacional;
- Etapa 2:
Definição arquitetural: define o estado arquitetural desejado do segmento, documenta as metas de desempenho, considera as alternativas de projeto e desenvolve uma arquitetura corporativa para o segmento, incluindo as arquiteturas de negócio, dados, serviços e tecnologia
- Etapa 3:
Estratégias de investimento e custeio: considera como o projeto será custeado;
- Etapa 4:
Plano do programa de gerenciamento e projetos executivos: criação de um plano para gerenciar e executar o projeto, incluindo eventos e medidas de desempenho que avaliarão o sucesso do projeto.
Medição do sucesso da FEA
O framework FEA para medir o sucesso organizacional do uso da arquitetura corporativa está definido no framework de avaliação da (EA) do programa de arquitetura corporativa federal 2.1 [35]. As agências federais são classificadas de acordo com os respectivos níveis globais de maturidade em três categorias principais:
- Perfeição arquitetural: nível de maturidade da própria arquitetura;
- Uso arquitetural: quão efetivamente a agência usa sua arquitetura para dar suporte à tomada de decisões;
- Resultados arquiteturais: benefícios realizados pelo uso da arquitetura. O OMB atribui a cada agência uma classificação de sucesso, com base nas notas de cada categoria e uma nota cumulativa, como segue:
Verde
A agência se classifica muito bem no quesito perfeição (possui uma arquitetura corporativa bastante madura). Além disso, está bem classificada nos quesitos uso (a arquitetura corporativa está sendo usada com eficiência para encaminhar a estratégia existente) e resultados (o uso da arquitetura está trazendo valor ao negócio);
Amarelo
A agência se qualifica muito bem no quesito perfeição. Está, ainda, bem posicionada nos quesitos uso ou resultados;
Vermelho
A agência não tem uma arquitetura perfeita e/ou não a usa com eficiência.
O framework desperta o interesse além dos limites do setor público. As classificações das categorias podem ser proveitosamente adaptadas por muitas empresas para avaliar o nível de maturidade das próprias iniciativas arquiteturais. A Figura 9, por exemplo, apresenta a minha interpretação das categorizações de maturidade do OMB relativas à perfeição arquitetural, conforme minha adaptação para o setor privado. Adaptações similares podem ser criadas para uso e resultados arquiteturais.

Figura 9. Classificação da perfeição arquitetural do OMB, adaptada para o setor privado pelo autor (Roger Sessions)
FEA aplicada à MedAMore
Agora, depois de ter apresentado a abordagem FEA, vejamos o que isso pode significar para a MedAMore. Vamos pressupor que Cath (a CEO da MedAMore) ouviu referências à FEA e como essa metodologia é promissora para simplificar a organização do governo federal. Se pode fazer tudo isso pelo governo federal, pensa ela, por certo também poderá ajudar a sua empresa.
Cath admite um consultor, Fred, especialista em FEA (se é que se pode dizer isso de uma metodologia que, no momento em que este artigo é escrito, tem menos de um ano de vida!). O trabalho do Fred é mostrar à MedAMore como executar a FEA–lógico, não a verdadeira FEA, mas a FEA que poderia ser aplicada ao setor privado. Cath apresenta Fred ao Bret (o Vice-presidente comercial) e à Irma (a CIO) e solicita-lhes que construam para a empresa um sistema MEA-FEA adaptado para a MedAMore.
Lembre-se que a Cath assumiu um grande risco. Nenhuma outra empresa, até hoje, tentou aplicar a FEA ao setor privado; e mesmo a experiência de usar a FEA no setor público é simbólica, na melhor das hipóteses.
A primeira coisa que o Fred desejará fazer é despertar o entusiasmo para o sistema MEA. Lembre-se: ele está entrando numa organização em que o pessoal do comercial quase não fala com o pessoal da informática. Para que o sistema MEA faça sucesso, ele não só precisa transformar os processos, mas as pessoas. O Fred desejará criar uma série de seminários explicando o valor do sistema MEA a ser definido e como ele trará benefícios não apenas para a MedAMore como um todo mas, especificamente, a cada um dos setores da empresa.
A seguir, Fred construirá uma estrutura de governança, o equivalente à FEAPMO da MedAMore. MEAPMO será minha denominação a este grupo. A MEAPMO será proprietária do MEA, incluindo processos, modelos e a própria arquitetura.
O próximo passo do Fred, provavelmente, será criar modelos de referência que possam ser usados por todas as organizações de toda a MedAMore. Os cinco modelos de referência da FEA podem ser usados como um ponto de partida. Alguns, como o modelo de referência técnica, poderá ser usado com poucas modificações. Já outros, como o modelo de referência do negócio, exigirão grandes adaptações. Fred não deverá se ater demasiadamente aos detalhes mas, sim, criar pontos de partida e construí-los na medida em que o sistema MEA evolui.
A seguir, provavelmente Fred desejará criar uma descrição da arquitetura de segmentos aplicável à MedAMore. Observe que ele não fará uma arquitetura de segmentos completa, mas apenas uma descrição de alto nível. O processo real para concluir a arquitetura será um projeto em constante evolução.
Neste ponto, muito trabalho terá sido executado, com poucos resultados. Fred desejará dar um primeiro passo no processo da arquitetura de segmentos. O processo da FEA será um bom ponto de partida, mas exigirá especialização da MedAMore em nível de detalhe (por exemplo, quem são os componentes da equipe e que forma deverão tomar os artefatos gerados).
Agora, Fred testará o processo com a finalização do primeiro segmento. Ele precisará formar uma equipe e, depois, liderá-la na análise e priorização dos segmentos, mapeando-os de acordo com o seu valor para o negócio, determinando as respectivas opções arquiteturais, entregando o trabalho e, quem sabe, o mais importante, medindo os resultados. Essas medições serão críticas na construção do momento para o trabalho futuro.
Logo após finalizar o primeiro segmento, Fred pode decidir que já é hora de medir o andamento dos vários grupos da MedAmore que utilizam o sistema MEA efetivamente. Para tanto, Fred precisa de um parâmetro para medir o sucesso dos vários grupos da MedAMore que trazem valor ao negócio com o sistema MEA. Assim, Fred lidera a MEAPMO na construção de um sistema na MedAMore equivalente ao framework de avaliação da (EA) do programa de arquitetura corporativa federal [35]. Esse parâmetro pode ser a principal ferramenta da Cath para garantir que os dois grupos diferentes consideram o sistema MEA seriamente e que seu investimento está sendo compensado.
E, por fim, depois de ter concluído este processo, Fred recomeçará. Cada iteração resultará na entrega de novos segmentos, geração de mais valor para o negócio e no acréscimo de mais substância à metodologia do MEA. Bem, no mínimo, esta é a teoria. Como mencionei anteriormente, com o sistema MEA, estamos trabalhando na vanguarda absoluta.